Conceito de Hegemonia

Lilén Gomez | ago. 2022
Professora de Filosofia

A hegemonia é uma articulação de poder em função da liderança, orientação e influência, capaz de se desenvolver em diferentes níveis socioculturais, políticos e econômicos. O conceito surge no século XX, como uma categoria de análise que vem reformular certas noções do marxismo tradicional, fazendo surgir a possibilidade de pensar as lutas sociais no contexto de uma articulação entre socialismo e democracias contemporâneas.

É uma concepção que resulta da crítica a um aspecto da teoria marxista clássica que pode ser apontado como determinista, segundo o qual o desenvolvimento da história necessariamente avançaria, seguindo um determinado desdobramento segundo as leis. A noção de hegemonia, nesse sentido, levanta uma dimensão de contingência dentro dos processos históricos.

A crise das categorias anteriores

A partir da Primeira Guerra Mundial, as categorias teóricas tradicionais do marxismo começam a ser repensadas, uma vez que se apresentam como insuficientes para construir um projeto político que pudesse materializar as lutas sociais no contexto de uma etapa histórica em que novas contradições se apresentavam.

As lutas sociais, nesse quadro, passam por uma fragmentação que problematiza a natureza necessária do desdobramento dialético da história, nos termos em que ela havia sido erguida pelo marxismo clássico. A fragmentação das lutas sociais exigiu um novo ponto de vista, ao qual responde a noção de hegemonia, destacando a dimensão de articulação e aliança entre essas lutas.

A perspectiva gramsciana

Seguindo os desenvolvimentos do filósofo marxista Antonio Gramsci (1891-1937), a hegemonia pode ser definida como uma direção política, intelectual e moral. O poder constrói a hegemonia, na medida em que tem a capacidade de obter o consenso das massas populares no quadro das relações de dominação, reduzindo assim a necessidade de coerção sobre elas.

Os mecanismos de construção da hegemonia baseiam-se numa rede de instituições —escolas, igrejas, museus, partidos políticos, etc—, na qual a população é formada na ideologia dominante, ou seja, a ideologia da classe burguesa. Trata-se de um processo de subordinação passiva e não de imposição forçada, baseado numa certa flexibilidade a partir da qual a classe dominante é capaz de converter os interesses dos grupos subordinados em seus próprios interesses de classe, sob a marca de uma “vontade coletiva”. . A ideologia dominante se corporifica no quadro das instituições culturais que, por sua vez, produzem as subjetividades dos homens que compõem as massas, modulando sua visão de mundo.

Através de tal modificação da concepção de mundo, os interesses das massas são dirigidos de acordo com os interesses da burguesia, que são considerados gerais. Assim, a teoria gramsciana permite compreender como a hegemonia pode distorcer o necessário progresso da história, pois introduz um campo de contingência nas relações sociais, na medida em que nem sempre é possível identificar o sujeito revolucionário com as classes populares.

A figura da hegemonia no século XXI

Os filósofos Ernesto Laclau (1935-2014) e Chantal Mouffe (1943) recuperam os desenvolvimentos gramscianos de forma crítica, aprofundando a noção de classe social que está na base de suas elaborações.

De acordo com sua perspectiva, não há relação necessária entre a identidade dos sujeitos sociais e sua pertença de classe, mas essa identidade é construída de forma relacional, baseada em uma lógica de articulação e contingência, à qual a construção da hegemonia. Ou seja, o poder não é o resultado da disputa entre duas identidades anteriores (a saber, as identidades que representam as classes sociais em conflito), mas é uma condição de possibilidade da constituição dessas identidades em si.

Portanto, o objetivo da luta política não pode ser a eliminação do poder —já que é constitutivo das identidades sociais—, mas, a partir da noção de hegemonia, é preciso repensar como é possível conciliar essas relações de poder com o valores de uma democracia radical.

A ideia de hegemonia como campo em disputa, não dado de antemão, que ultrapassa a luta pelo poder, permite compreender a práxis política como possibilidade de produzir uma universalidade a partir do particular e não como imposição do particular sobre o particular. conjunto social.

Artigo de: Lilén Gomez. Professora de Filosofia, com desempenho em ensino e pesquisa em áreas da Filosofia Contemporânea.

Referencia autoral (APA): Gomez, L.. (ago., 2022). Conceito de Hegemonia. Editora Conceitos. Em https://conceitos.com/hegemonia/. São Paulo, Brasil.

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