1. Passagem marítima situada entre o golfo Pérsico e o golfo de Omã, que conecta as águas interiores da região petrolífera mais produtiva do mundo com o oceano Índico, separando a costa meridional do Irã da península Arábica — concretamente do território de Omã e dos Emirados Árabes Unidos.
2. Corredor estratégico cuja largura mínima gira em torno de 33 quilômetros, por onde transita aproximadamente uma quinta parte do petróleo consumido em nível global, o que o torna o ponto de estrangulamento (chokepoint) energético mais sensível do comércio internacional.
3. Espaço submetido ao regime de passagem em trânsito estabelecido pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM, 1982), cuja regulação gera tensões recorrentes entre os estados ribeirinhos e as potências navais que operam na zona.
4. Por extensão, sinônimo de vulnerabilidade na cadeia de abastecimento energético mundial. Exemplo: 'A crise no estreito de Ormuz disparou os preços do barril de petróleo e pressionou o valor dos combustíveis no Brasil'.
Etimologia: 'Estreito', pelo latim strictus, particípio passivo de stringĕre, enquanto 'apertar', 'comprimir', aludindo ao angostamento de um corpo d'água entre duas massas terrestres. 'Ormuz' (também grafado Hormuz), pelo nome da ilha de Hormoz, localizada na boca do estreito do lado iraniano, cuja denominação provavelmente derive do persa médio Hurmuẕd, uma forma local do nome do deus zoroástrico Ahura Mazda, protetor da sabedoria e da luz, ou ainda do antigo reino de Ormuz (Hormuz), potência comercial que dominou o tráfego marítimo do golfo Pérsico entre os séculos X e XVII.
O estreito de Ormuz ocupa apenas um ponto no mapa, porém concentra uma proporção desmesurada da política energética, da diplomacia e da tensão militar globais. Em termos estritamente geográficos, trata-se de um canal natural de cerca de 33 quilômetros em sua seção mais angosta, com uma profundidade navegável que não supera os 60 metros nas faixas de tráfego do dispositivo de separação administrado pela Organização Marítima Internacional (OMI). Essa faixa de água é, no entanto, o gargalo por onde flui a maior parte das exportações de petróleo cru da Arábia Saudita, do Iraque, do Kuwait, dos Emirados Árabes Unidos e do Catar, além de volumes significativos de gás natural liquefeito (GNL). Compreender sua importância exige cruzar a geografia física com a geopolítica do petróleo, o direito do mar e a história dos conflitos no golfo Pérsico — um exercício no qual a escala do mapa é inversamente proporcional à magnitude das consequências. Para o Brasil, que se consolidou como um dos maiores produtores de petróleo do mundo graças às reservas do pré-sal, a relevância de Ormuz poderia parecer indireta; no entanto, o preço do barril de petróleo é definido em mercados globais, de modo que qualquer perturbação no estreito se reflete imediatamente nos custos de refino, no valor dos combustíveis nas bombas brasileiras e na balança comercial de um país que exporta petróleo cru mas ainda importa derivados.
O estreito se estende ao longo de aproximadamente 167 quilômetros entre o golfo Pérsico, a noroeste, e o golfo de Omã, a sudeste. A costa setentrional pertence ao Irã; a meridional, ao enclave omanense de Musandam e aos Emirados Árabes Unidos. Em seu ponto mais estreito, entre a ilha iraniana de Larak e a península de Musandam, a distância entre costas se reduz a cerca de 33 quilômetros. O esquema de navegação estabelecido pela OMI dispõe duas faixas de tráfego de aproximadamente três quilômetros de largura cada uma — uma de entrada no golfo e outra de saída —, separadas por uma zona intermediária de pouco mais de três quilômetros, o que deixa uma margem operacional consideravelmente reduzida para navios de grande calado. Convém contrastar essa dimensão com outras passagens estratégicas: o canal de Suez possui uma largura mínima de 205 metros, porém é uma via artificial com controle centralizado, enquanto o estreito de Malaca, com seus 2,8 quilômetros em sua parte mais angosta, movimenta um volume comparável de tráfego mas distribuído em uma extensão longitudinal muito maior. Ormuz combina a angostura com a concentração de um único recurso — hidrocarbonetos —, o que o torna um ponto de fragilidade sem equivalente exato.
Segundo a Administração de Informação Energética dos Estados Unidos (EIA), durante 2023 transitaram pelo estreito de Ormuz uma média de aproximadamente 21 milhões de barris de petróleo diários, o que representou cerca de 21% da demanda global de petróleo cru. A esse fluxo soma-se aproximadamente uma quinta parte do comércio mundial de GNL, principalmente exportações catarenses. Para dimensionar a dependência: um fechamento total do estreito — cenário que nenhum ator materializou até o momento, mas que constitui uma ameaça recorrente na retórica regional — privaria o mercado de um volume equivalente à produção combinada dos Estados Unidos e da Rússia, as duas maiores potências petrolíferas fora da OPEP.
A concentração de risco tem motivado tentativas de diversificação. A Arábia Saudita opera o oleoduto Leste-Oeste (Petroline), com capacidade de transportar cerca de cinco milhões de barris diários desde os campos da Província Oriental até o porto de Yanbu, no mar Vermelho, evitando assim o trânsito por Ormuz. Os Emirados Árabes Unidos concluíram em 2012 o oleoduto Habshan-Fujairah, que permite desviar até 1,5 milhão de barris diários diretamente para o golfo de Omã. No entanto, a capacidade combinada dessas alternativas segue sendo insuficiente para compensar um bloqueio prolongado, e a infraestrutura terrestre introduz suas próprias vulnerabilidades diante de ataques ou sabotagens. Para países que, como o Brasil, possuem produção própria significativa mas cujas refinarias foram em parte projetadas para processar petróleos mais leves do que o cru nacional — historicamente importado do Oriente Médio —, a dependência de Ormuz persiste de maneira menos evidente mas não menos real.
O estreito se consolidou como ponto nevrálgico da política mundial durante a denominada Guerra dos Petroleiros (1984–1988), fase da guerra Irã-Iraque na qual ambos os beligerantes atacaram navios comerciais para estrangular as exportações do adversário. Entre 1981 e 1988, mais de 400 embarcações foram danificadas ou destruídas no golfo, conforme dados compilados por Martin Navias e E. R. Hooton em Tanker Wars: The Assault on Merchant Shipping During the Iran-Iraq Conflict (I.B. Tauris, 1996). Os Estados Unidos responderam com a Operação Earnest Will (1987–1988), escoltando navios kuwaitianos rebatizados sob bandeira norte-americana, no que constituiu a maior operação de escolta naval desde a Segunda Guerra Mundial.
O padrão de tensão cíclica se reproduziu nas décadas seguintes. Em 2019, uma série de ataques contra petroleiros no golfo de Omã e a derrubada de um drone militar norte-americano por parte do Irã elevaram o confronto a um ponto que esteve perto de desembocar em um conflito aberto. O Irã tem reiterado em múltiplas ocasiões sua capacidade de fechar o estreito como represália diante de sanções econômicas ou ações militares, uma ameaça que o analista Kenneth Pollack, em Unthinkable: Iran, the Bomb, and American Strategy (Simon & Schuster, 2013), descreve como a principal ferramenta de dissuasão assimétrica de Teerã: a capacidade de infligir um dano econômico global desproporcional em relação ao seu próprio poder militar convencional.
A CNUDM de 1982, em seus artigos 37 a 44, estabelece o regime de passagem em trânsito para os estreitos utilizados para a navegação internacional, garantindo a todos os navios e aeronaves o direito de travessia ininterrupta e expedita. O Brasil, que ratificou a Convenção em 1988 e a incorporou ao ordenamento jurídico interno em 1995, tem historicamente defendido tanto o princípio da liberdade de navegação em águas internacionais quanto a soberania dos estados costeiros sobre seus recursos — uma posição que reflete sua própria experiência ao reivindicar a extensão da plataforma continental além das 200 milhas náuticas. O Irã, por sua vez, ratificou a convenção mas tem sustentado interpretações restritivas, argumentando em diversas instâncias que conserva faculdades de regulação sobre o tráfego naval que outros estados lhe negam. A tensão jurídica reside no fato de que o estreito de Ormuz não se ajusta ao caso típico do direito internacional: suas águas ficam quase inteiramente compreendidas dentro das zonas econômicas exclusivas e dos mares territoriais do Irã e de Omã, o que gera uma sobreposição entre a soberania ribeirinha e o direito de passagem que a CNUDM busca proteger.
Na prática, essa ambiguidade se traduz em incidentes: detenção de navios com bandeira estrangeira, manobras navais intimidatórias e disputas sobre a obrigação de comunicar previamente o trânsito. Hugo Grotius, em sua obra fundacional Mare Liberum (1609), já havia proposto o princípio da liberdade dos mares como condição necessária para o comércio entre nações; mais de quatro séculos depois, o estreito de Ormuz demonstra que a tensão entre soberania territorial e liberdade de navegação permanece irresoluta nos pontos onde a geografia comprime o espaço até convertê-lo em uma decisão política.
Um argumento frequente sustenta que a transição para energias renováveis reduzirá progressivamente a importância estratégica do estreito. Os dados, no entanto, sugerem um horizonte mais complexo. A Agência Internacional de Energia (AIE), em seu World Energy Outlook 2023, projeta que mesmo em seu cenário de emissões líquidas zero para 2050, a demanda de petróleo seguirá sendo de aproximadamente 24 milhões de barris diários em meados do século, concentrada em setores difíceis de eletrificar como a aviação, o transporte marítimo e a petroquímica. O Catar, cujas exportações de GNL atravessam obrigatoriamente Ormuz, empreendeu uma expansão massiva de sua capacidade de produção com o projeto North Field East, que elevará sua produção de 77 para 126 milhões de toneladas anuais até 2027, consolidando o estreito como artéria também do mercado gasífero em plena era de transição.
O Brasil, cuja matriz energética é uma das mais diversificadas do mundo — com participação expressiva de hidroelétricas, etanol, eólica e solar —, encontra-se numa posição singular: é simultaneamente grande produtor de petróleo e referência em energias renováveis. Ainda assim, enquanto o petróleo continuar sendo uma commodity precificada globalmente, qualquer instabilidade em Ormuz continuará reverberando nos indicadores econômicos brasileiros, desde o preço da gasolina até a cotação das ações da Petrobras. Desse modo, o estreito de Ormuz ilustra com nitidez como um acidente geográfico — uma compressão do mar entre duas costas — pode condicionar a economia, a diplomacia e a arquitetura de segurança de todo o sistema internacional. Enquanto o mundo depender em alguma medida significativa dos hidrocarbonetos do golfo Pérsico, esses 33 quilômetros de água seguirão sendo, paradoxalmente, um dos espaços mais vigiados e mais frágeis do planeta.
Referencia autoral (APA): Editora Conceitos.com (Março 2026). Conceito de Estreito de Ormuz. Em https://conceitos.com/estreito-ormuz/. São Paulo, Brasil.