Conceito de Transferência (Psicanálise)

Agustina Repetto | Fevereiro 2024
Licenciada em Psicologia

Freud, em seus primeiros escritos, reconheceu a importância da relação entre paciente e terapeuta, alertando para a transferência de sentimentos não resolvidos para a figura do analista. Em seu trabalho sobre a Interpretação dos Sonhos, ele sugeriu que os afetos do paciente para com o analista representam a repetição e a atualização de padrões de vínculos passados e infantis, ou seja, de conflitos e vínculos emocionais passados. Essa relação de transferência, segundo Freud, fornece uma janela para o mundo inconsciente do indivíduo.

Características fundamentais da Transferência

Transferencia-PsicoanaliseFreud identificou duas formas principais de transferência: positiva e negativa. A transferência positiva envolve a idealização do terapeuta, o surgimento de afetos amorosos ou de admiração, enquanto a transferência negativa se manifesta em sentimentos hostis ou de rejeição em relação ao terapeuta. Ambos os tipos de transferência, embora opostos em sua tonalidade emocional, revelam aspectos-chave da vida emocional do paciente.

Porém, a dinâmica da transferência não é exclusiva do paciente. Freud também reconheceu a contratransferência, que descreve as emoções, pensamentos e reações do terapeuta em relação ao paciente. Essa contratransferência pode ser utilizada como um recurso valioso para a compreensão dos nossos aspectos inconscientes e do paciente, embora deva ser manejada com cautela para não interferir no processo terapêutico. A transferência e o Inconsciente

Para Freud, a transferência não era simplesmente um obstáculo a ser superado na análise, mas sim um veículo ideal para acessar material inconsciente relevante. O terapeuta, ao interpretar e trabalhar as manifestações transferenciais, facilita a exploração de conflitos e desejos reprimidos, permitindo ao paciente uma maior compreensão de seu psiquismo. A análise de transferência torna-se assim um meio de desvendar emaranhados emocionais, facilitando a resolução de conflitos não resolvidos e o crescimento psicológico. Freud enfatizou que a transferência era um aspecto inerente à dinâmica terapêutica e que sua correta interpretação permitiu avanços significativos no processo analítico. Mecanismos psíquicos em jogo

Freud identificou múltiplos mecanismos psíquicos na transferência, tais como: repressão, mecanismos de defesa e formação de sintomas. A transferência, em sua essência, baseia-se na repetição de padrões emocionais do passado, representando um processo de repetição compulsiva de experiências não resolvidas. A repressão, mecanismo fundamental na teoria freudiana, atua na transferência mantendo ocultos desejos, emoções ou conflitos, manifestando-se de forma disfarçada por meio da relação terapêutica. Mecanismos de defesa, como projeção ou identificação, também se manifestam na transferência, revelando estratégias inconscientes para lidar com conflitos internos.

Por exemplo, quando um paciente projeta sentimentos de dependência em relação ao terapeuta, ele pode estar revivendo padrões de relacionamento com figuras de autoridade desde a infância. Esta projeção oferece ao terapeuta acesso privilegiado aos aspectos mais íntimos e profundos do mundo interno do paciente. Exemplos ilustrativos

Imaginemos um indivíduo que manifesta uma transferência negativa em relação ao seu terapeuta, expressando ressentimento ou desconfiança. Pela teoria psicanalítica, esses sentimentos podem estar enraizados em experiências iniciais de abandono ou traição, armazenadas em seu inconsciente. Ao explorar esta transferência, pode-se desenterrar estes eventos passados e compreender como eles influenciam as percepções atuais.

Num outro cenário, a transferência positiva pode revelar uma idealização do terapeuta, reflectindo a procura de um modelo parental protector ou amoroso ausente na vida do paciente. Esses exemplos ilustram como a transferência atua como uma janela para a complexidade do mundo emocional subjacente. Relação com Formação de Sintomas

A transferência pode ser considerada um cenário onde os sintomas psicológicos se formam e se manifestam. Por exemplo, um sintoma recorrente pode estar ligado a uma transferência negativa em relação ao terapeuta, refletindo um conflito interno não resolvido que se manifesta no relacionamento com o analista. Passeio bibliográfico pelas obras de Freud

A transferência pode ser um obstáculo, mas também uma força motriz e, sem dúvida, está sempre presente na vida, não apenas na terapia (não é uma criação dela), embora aí assuma uma forma particular, se revele, em relação ao dispositivo analítico.

Não levar em conta a transferência pode levar a um fracasso na análise (como acontece com Freud no caso Dora), pois é um aspecto muito importante que entra em jogo.

No texto de “A Interpretação dos Sonhos” (ano 1900, tomo IV, Amorrortu Editores, Obras Completas), ele a define como um deslocamento de energia, de tipo psíquico e em “Psicoterapia da histeria” (ano 1985, tomo II , Amorrortu Editores, Obras Completas), diz que é um link falso.

Ele também dá conta dessa noção em “Sobre a dinâmica da transferência” (1912, volume, Amorrortu Editores, Obras Completas) afirma que são reedições.

O texto “Relembrar, repetir, retrabalhar” (1914, volume Amorrortu Editores, Obras Completas) define-o em termos de resistência.

Portanto, a transferência aparece inúmeras vezes nos escritos psicanalíticos, dada a sua importância, bem como o seu manejo prudente na análise, pelo terapeuta.

Importância do seu legado e aplicações contemporâneas

Embora a transferência tenha sido concebida por Freud no contexto da psicanálise, sua influência se espalhou por diversas correntes e disciplinas terapêuticas. Hoje, as terapias contemporâneas reconhecem a importância da aliança terapêutica, ao contrário da abordagem original centrada na transferência. Enquanto a transferência se concentra nos padrões emocionais passados projetados para o terapeuta, a aliança terapêutica se concentra na qualidade do relacionamento atual entre o terapeuta e o paciente.

Esta aliança, baseada na colaboração, confiança e respeito mútuo, estabelece o cenário ideal para o trabalho terapêutico. Por outro lado, a transferência proporciona acesso ao mundo emocional do paciente, influenciando o rumo do tratamento. Como base do relacionamento, a aliança terapêutica facilita a exploração da transferência e permite compreender e abordar padrões emocionais emergentes no relacionamento atual.

Outros significados para transferência no âmbito de dinheiro, bens, medos, dados…

A transferência de dinheiro de uma pessoa ou entidade para outra, através das respectivas contas bancárias, pode ser feita presencial u virtualmente e constitui uma operação extremamente comum. Por exemplo: “Juan realizou com sucesso a transferência para compra de um carro novo”, “Pedro notificou o vendedor que em breve lhe enviará uma transferência para fechar o negócio”.

Estas trocas, frequentemente utilizadas na compra e venda de negócios (embora também para fins pessoais), de diversas magnitudes, podem ser nacionais ou internacionais e são realizadas através de uma série de etapas formais.

Também pode transferir bens (de acordo com as leis em vigor no referido território), energia, medos, esperanças, etc., ou seja, é um termo muito amplo, em relação a uma troca entre dois, utilizado em ciências e campos diferentes.

Por exemplo: “Amália transferiu o medo dos animais emplumados para a filha”, “Os mamíferos transferem o calor do seu corpo para o dos seus pequenos descendentes, necessário à sobrevivência da espécie”.

Na computação, transferência de dados refere-se ao envio de informações de um dispositivo para outro, por exemplo, de um computador para outro, de um celular para uma impressora, seja por meio de conexão com fio ou sem fio, via Wi-Fi, Bluetooth, etc.

Artigo de: Agustina Repetto. Graduada em Psicologia, pela Universidade Nacional de Mar del Plata. Atualmente é pós-graduanda em Sexualidade Humana: sexologia clínica e educacional a partir da Perspectiva de Gênero e Direitos Humanos.

Referencia autoral (APA): Repetto, A.. (Fevereiro 2024). Conceito de Transferência (Psicanálise). Editora Conceitos. Em https://conceitos.com/transferencia-psicanalise/. São Paulo, Brasil.

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