Conceito de Cosmovisão

Águeda Muñoz Gerardo | Setembro 2023
Lic. em Antropologia Física

O termo cosmovisão refere-se à forma como uma cultura estabelece a realidade, portanto, abrange todos os aspectos da vida de uma pessoa, isto é, sua relação com a natureza e o meio ambiente, a convivência com outros indivíduos, as expressões artísticas, os pensamentos políticos, o sistema econômico e até mesmo os sentimentos. Em outras palavras, é a configuração mental estabelecida pela sociedade à qual pertencemos para interpretar o mundo.

Geralmente, ao pensar em cosmovisão, vem à mente a ideia de “religião”, principalmente por cumprirem funções semelhantes, porém, a religião e a cosmovisão não são iguais. A religião também se enquadra dentro da cosmovisão de um povo como um reflexo dela, que corresponde à identidade espiritual e, em muitas ocasiões, moral de um grupo humano, mas a religião não define como será a visão de mundo de tal grupo.

Podem existir pessoas da mesma nacionalidade que seguem religiões diferentes, mas que partilham uma visão do mundo, ou seja, conseguem ver o mundo da mesma forma ou de forma compatível porque cresceram num contexto que ordena a realidade sob os mesmos princípios ou alguns muito semelhantes. Um caso oposto muito claro seria o da conquista da América, onde os católicos europeus estão num plano de cosmovisão diferente daquele das culturas pré-hispânicas da Idade Média e aqui não há figuras que estejam relacionadas entre ambas as cosmovisões.

Cosmovisão e linguagem

Uma das formas mais importantes pelas quais a cosmovisão se manifesta é na linguagem, pois através dela são expressos símbolos que representam o que um grupo humano é capaz de significar, o que ele assimila de sua realidade. Temos vários exemplos simples nesta área: os múltiplos nomes que os Inuit dão ao branco ou os Lacandones e as sociedades amazónicas ao verde têm a ver com o seu ambiente natural, o primeiro grupo está rodeado de neve e de acordo com a coloração podem-se diferenciar diferentes coisas como, por exemplo, se vem uma tempestade, se tem um urso, se é gelo ou neve, etc. O segundo grupo, que vive na selva, tem um mecanismo semelhante, mas para a cor verde. Em outro caso, temos a forma como os antigos mexicas nomeavam o elemento vital do ser humano, algo que em outras sociedades é conhecido como alma, mas que para este grupo americano não correspondia a apenas uma categoria, mas a três: teyolia (no coração), tonalli (na cabeça) e ihíyotl (no fígado).

Encontro de cosmovisões

O que acontece quando duas visões de mundo diferentes entram em contato? Se tem registro de muitos casos de conflito que ocorrem quando duas visões de mundo se enfrentam. Tais conflitos podem ser resumidos como a falta de um tradutor relevante, que não só se dedique às palavras, mas também aborde o sistema de crenças e representações de uma pessoa ou povo. Contudo existe uma maneira mais rápida de evitar mal-entendidos: a empatia. Ao reconhecer que a configuração cultural do outro é válida e lhe proporciona os elementos necessários para se conduzir ao longo da vida, podem ser alcançados acordos de convivência eficazes. Mas isso não acontece com frequência, ou melhor dizendo, quase nunca.

As consequências destes encontros são muitas e altamente variáveis. Por exemplo, um dos resultados é a integração de elementos de diferentes visões de mundo, como no caso dos Yaquis, cuja forte relação com seu território pode ser percebida no seguinte mito de origem descrito a seguir:

Conta-se a história de uma grande enchente que moldou as montanhas e os rios assim que a água foi drenada; Também quando Deus criou o mundo, Ele fez dois macacos de barro, um branco e outro marrom, ele soprou sobre eles e os reanimou, então Cristo perguntou aos Yoris (os não indígenas, “brancos”) e aos Yaquis, o que eles queriam para se sustentar. O primeiro respondeu que queria dinheiro, o segundo respondeu que queria a terra e o rio, para plantar feijão e milho e então, Cristo lhes concedeu seus desejos.

Ele deu aos yoris a enxada, a pá e o facão e disse-lhes que havia dinheiro debaixo da terra. Aos Yaquis ele deu a terra junto com o rio e toda a água, inclusive espécies animais e vegetais, com isso concedeu-lhes o veado, a lebre, o coelho e a pitaia, deu-lhes permissão para caçá-los para comer e para semear. Portanto, aos Yaquis receberam uma pá, um facão e uma enxada, todas velhas e lhes foi dito para ajudarem uns aos outros, mas nunca venderem qualquer parte de suas terras aos Yoris.

Aqui a existência dos Yaquis e dos povos não indígenas é explicada através de categorias da religião cristã, mas com elementos que remetem ao mundo Yaqui, como o ambiente natural, e assim justificam a relação que mantêm com seu território ancestral, o que é sagrado porque lhe foi dado por Cristo/Deus. Isto tem implicações políticas e jurídicas para a administração do território (nem todos podem utilizar livremente este espaço ou os seus recursos). Tal relação entre os Yaquis e o resto dos mexicanos, também se descreve através da ideia da sacralidade da terra, ou seja, de que os Yaquis estão ligados a esse território por um vínculo divino e muito antigo, separando-se do é perigoso porque seria desobedecer aos deuses, por isso devem protegê-lo, principalmente daqueles que procuram explorar os recursos que nele estão concentrados.

Assim, percebe-se como uma série de regras de comportamento emergem da visão de mundo particular de um povo. Com este caso, podemos observar um mecanismo de sobrevivência cultural ao incluir novos elementos que chegam a um determinado sistema de visão de mundo, para reinterpretar e ajustar a novidade, o que mantém um equilíbrio na estrutura de pensamento. No caso dos Yaquis, os elementos do catolicismo foram internalizados nos mitos de origem, nos quais Cristo e a Virgem são os Yaquis originais e o ritual profundamente enraizado deste povo é hoje visto nas manifestações católicas, mas é uma característica que já existia neles, havendo então uma substituição de forma e não de substância.

Artigo de: Águeda Muñoz Gerardo. Licenciada em Antropologia Física pela Escola Nacional de Antropologia e História. Mestre em Antropologia pela Universidade Nacional Autônoma de México. Atualmente cursa o doutorado em Antropologia na UNAM. Entre seus temas de interesse estão migrações humanas, antropologia genética e povos indígenas de México.

Referencia autoral (APA): Muñoz Gerardo, Á.. (Setembro 2023). Conceito de Cosmovisão. Editora Conceitos. Em https://conceitos.com/cosmovisao/. São Paulo, Brasil.

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