Conceito de Habitus

Lilén Gomez | Março 2023
Professora de Filosofia

O conceito de habitus —termo latino que expressa a ideia de “modo de ser”, “atitude”, “disposição” — foi desenvolvido pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), ocupando um papel central em sua teoria, cuja noção não equivale ao que entendemos por hábito na linguagem comum, mas inclui um conjunto de princípios que estruturam nossos modos de perceber, valorizar e agir, que adquirimos e reproduzimos pelo simples fato de pertencer a um grupo social.

A teoria do habitus

Os habitus são princípios estruturais que geram disposições, costumes, modos de sentir, em virtude dos quais pessoas que pertencem a um mesmo espaço social agirão de forma semelhante em situações semelhantes.

Bourdieu desenvolve a noção de habitus para explicar os rituais pelos quais os casamentos eram formados em uma determinada sociedade, apontando que podiam ser observadas estratégias compartilhadas que se repetiam entre os casos singulares. Essas estratégias não se limitavam a regras explícitas de acasalamento, mas respondiam a comportamentos implicitamente aceitos.

O habitus como estrutura

O habitus surge como um conjunto de princípios estruturantes da percepção e do comportamento dos indivíduos dentro de um determinado grupo social, como regra de tais ações. Nesse sentido, são os “paradigmas” que ordenam as práticas sociais e os significados que elas adquirem no espaço social. Esses princípios são incorporados aos esquemas mentais e disposições corporais por meio da socialização dos indivíduos, desde a infância. Consequentemente, constituem um conhecimento tácito, que não é mediado pela consciência do indivíduo, mas funciona como um “automatismo” prático.

Não existe um habitus homogéneo para toda uma sociedade, mas, quando se fala em habitus, faz-se referência ao ajustamento entre as condições materiais de existência dos sujeitos — associadas à sua posição nas classes sociais, segundo os recursos econômicos disponíveis, bem como sua inserção nas instituições sociais – e um sistema de disposições, práticas e representações simbólicas que reafirmam o pertencimento de tais sujeitos ao grupo social definido por essas condições. O habitus, como estrutura organizacional, tem caráter objetivo, ou seja, não é subjetivo, pois não depende de cada indivíduo e de suas decisões conscientes, mas é o que determina o campo de decisões possíveis para aquele indivíduo.

Como sistema objetivo, a existência do habitus transcende sujeitos isolados, razão pela qual Bourdieu o caracteriza como “durável” e, por sua vez, “transferível”, seja porque um indivíduo manifesta o mesmo habitus em campos intercambiáveis (por exemplo, em seus gostos gastronómicos, seus gostos musicais, suas atividades de lazer, etc.), ou porque reproduzem esse habitus transferindo-o para outros em instâncias de socialização (como a educação dos filhos ou a educação institucional).

Por exemplo, o habitus de uma pessoa pertencente às classes altas de uma sociedade vai determinar o seu consumo cultural (que tipo de música vai ouvir, que peças vai ver no teatro), sua forma de se vestir, de falar, seus gestos e assim por diante, o que, provavelmente, não coincidirão com os de uma pessoa pertencente a um grupo social marginalizado. Assim, tomando outro exemplo, verifica-se estatisticamente que, diante de um desempenho escolar semelhante, as famílias de classe baixa encontram mais dificuldade para seus filhos acessarem e permanecerem no sistema formal de educação.

Por um lado, o conjunto de disposições e práticas sociais depende do pertencimento a determinado grupo e, portanto, o reafirma. No mesmo sentido, a objetividade do habitus reflete que ele não consiste em um mandato expresso ao qual se deve obedecer, por exemplo, não é uma ordem que possa ser emanada do poder político. Ao contrário, é produzido coletivamente, como resultado de afinidades eletivas entre os membros de um grupo.

Habitus e senso comum

Outra forma de se referir ao habitus é por meio da noção de senso comum, ou seja, o sentido que regula as reações socialmente esperadas em determinada situação, bem como as opiniões públicas. Cabe destacar que esta dimensão do habitus o torna um substrato para o exercício da dominação, uma vez que funciona como fundamento para a legitimação do poder, que é ensinado “pedagogicamente” desde a socialização primária. Dessa forma, torna-se possível a perpetuação de mecanismos arbitrários no exercício do comando social e político. Em contrapartida, a modificação das condições sociais acarreta uma transformação do habitus.

Artigo de: Lilén Gomez. Professora de Filosofia, com desempenho em ensino e pesquisa em áreas da Filosofia Contemporânea.

Referencia autoral (APA): Gomez, L.. (Março 2023). Conceito de Habitus. Editora Conceitos. Em https://conceitos.com/habitus/. São Paulo, Brasil.

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