Conceito de Informática

A informática pode ser entendida como o campo do conhecimento dedicado ao processamento automático da informação por meio de sistemas computacionais, integrando tanto os princípios teóricos do cálculo quanto as aplicações práticas de programação, armazenamento e transmissão de dados em formato digital. Seu nome é, por si só, uma peça curiosa da história linguística. Diferentemente de disciplinas cuja denominação remonta ao grego ou ao latim clássico, a informática nasceu como um sincretismo do século XX: em 1957, o cientista alemão Karl Steinbuch utilizou a palavra Informatik em sua publicação Informatik: Automatische Informationsverarbeitung (processamento automático de informação), e em 1962 o engenheiro francês Philippe Dreyfus a adaptou ao francês como informatique, fundindo as palavras information e automatique. Aprofundando a decomposição, a partícula “informa” provém do latim informare, em que o prefixo in- denota “para dentro” e formare significa “dar forma”: informar é, em seu sentido original, configurar uma ideia na mente de alguém. O componente “mática” replica o padrão morfológico de automática ou matemática. É significativo que o mundo anglófono tenha tomado outro rumo: a empresa norte-americana Informatics General Inc. registrou o termo em 1962 e processou judicialmente universidades que tentavam utilizá-lo, forçando a adoção de computer science, conforme documenta Paul Ceruzzi em A History of Modern Computing (MIT Press, 1998). Enquanto a tradição latina coloca a ênfase naquilo que se transforma — a informação —, a anglófona a deposita no instrumento — o computador —, uma diferença que não é apenas terminológica, mas filosófica.

Dois papers que fundaram uma civilização

Se fosse necessário apontar o momento em que a informática deixou de ser uma intuição dispersa para se tornar um campo com fundamentos próprios, esse momento se compõe de duas publicações separadas por doze anos. A primeira é On Computable Numbers, with an Application to the Entscheidungsproblem, apresentada por Alan Turing perante a London Mathematical Society em 1936, quando tinha vinte e quatro anos. Turing buscava responder a um desafio formulado por David Hilbert em 1928: existe um procedimento mecânico capaz de determinar a verdade ou falsidade de qualquer proposição matemática? Para respondê-lo, precisava definir com precisão o que significa “calcular”. Sua resposta foi uma máquina imaginária — uma fita infinita, um cabeçote de leitura e escrita, um conjunto finito de estados — que, como descreve Charles Petzold em The Annotated Turing (Wiley, 2008), não pretendia ser um artefato construível, mas uma formalização do ato humano de computar. O resultado foi duplo: demonstrou que existem problemas matemáticos que nenhum procedimento pode resolver, e estabeleceu que uma única máquina suficientemente geral poderia executar qualquer cálculo definível por regras. Alonzo Church batizou esse conceito como “Máquina de Turing” em sua resenha do mesmo ano, e desde então ele constitui a definição padrão de computabilidade.

A segunda publicação é A Mathematical Theory of Communication, de Claude Shannon, publicada no Bell System Technical Journal em julho e outubro de 1948. Onde Turing havia formalizado o cálculo, Shannon formalizou a comunicação. Propôs que qualquer mensagem poderia ser reduzida a uma sequência de dígitos binários — cunhando a palavra “bit”, sugerida por seu colega John Tukey — e demonstrou que todo canal de comunicação possui uma capacidade máxima de transmissão, hoje conhecida como “limite de Shannon”. A revista Scientific American qualificou esse paper como a “Carta Magna da Era da Informação”, e o historiador James Gleick, em seu livro The Information: A History, a Theory, a Flood (Pantheon, 2011), sustentou que foi o acontecimento intelectual mais importante de 1948, colocando até mesmo a invenção do transistor em segundo plano. Shannon não apenas criou a teoria da informação: forneceu a linguagem matemática sem a qual a informática, tal como a conhecemos, não teria coluna vertebral.

Da teoria ao silício

As ideias de Turing e Shannon encontraram sua materialização em um contexto bélico. Durante a Segunda Guerra Mundial, os britânicos construíram as máquinas Colossus para decifrar comunicações alemãs, enquanto nos Estados Unidos foi concluído o ENIAC em 1945, uma máquina de 18.000 válvulas a vácuo destinada ao cálculo de trajetórias balísticas. O salto conceitual decisivo foi articulado por John von Neumann em seu First Draft of a Report on the EDVAC (1945), no qual propôs que instruções e dados compartilhassem a mesma memória, permitindo que o programa fosse modificável de dentro da própria máquina. George Dyson, em Turing’s Cathedral: The Origins of the Digital Universe (Pantheon, 2012), descreve como a equipe de von Neumann no Instituto de Estudos Avançados de Princeton traduziu essa arquitetura em um computador operacional, estabelecendo o modelo que ainda estrutura as máquinas atuais.

A miniaturização posterior foi igualmente transformadora. O transistor, desenvolvido nos Bell Labs em 1947 por William Shockley, John Bardeen e Walter Brattain, substituiu as válvulas a vácuo, reduzindo drasticamente o tamanho e o consumo energético. Os circuitos integrados de Jack Kilby (1958) e Robert Noyce (1959) concentraram milhares de transistores em uma pastilha de silício. Em 1965, Gordon Moore formulou sua célebre observação — publicada na revista Electronics — segundo a qual a quantidade de transistores em um circuito integrado se duplicaria aproximadamente a cada dois anos, uma previsão que se manteve notavelmente vigente por mais de cinco décadas. O Intel 4004, lançado em 1971 com 2.300 transistores, inaugurou a era do microprocessador; hoje, um chip avançado ultrapassa os 100 bilhões.

O computador sai do laboratório

Walter Isaacson dedica boa parte de seu livro The Innovators: How a Group of Hackers, Geniuses, and Geeks Created the Digital Revolution (Simon & Schuster, 2014) a documentar como a informática deixou de ser patrimônio exclusivo de instituições militares e corporações para se tornar ferramenta cotidiana. O Altair 8800 (1975) acendeu a imaginação de uma geração que incluía Steve Wozniak e Steve Jobs, que lançaram o Apple II em 1977. Em 1981, a IBM legitimou o mercado com seu PC de arquitetura aberta, e a Microsoft consolidou seu domínio por meio do Windows, cuja interface gráfica aproximou o computador de milhões de pessoas sem formação técnica.

Mas foi a convergência com as telecomunicações que redefiniu o alcance da informática. Vannevar Bush, em seu ensaio As We May Think, publicado na The Atlantic em 1945, antecipou um dispositivo chamado “memex”, capaz de armazenar e vincular toda a informação de um indivíduo, prefigurando a lógica do hipertexto. Essa visão se concretizou décadas depois, quando Tim Berners-Lee, pesquisador do CERN, apresentou em 1989 sua proposta Information Management: A Proposal, na qual descreveu um sistema de documentos interconectados que se tornaria a World Wide Web. O relatório Facts and Figures 2025 da União Internacional de Telecomunicações (UIT) registra que 6 bilhões de pessoas utilizaram a internet naquele ano, três quartos da população mundial. No entanto, 2,2 bilhões permanecem sem conexão, e a desigualdade é severa: um usuário de um país de alta renda consome quase oito vezes mais dados móveis do que um de baixa renda, segundo o mesmo relatório, o que expõe que a conectividade, sem políticas de equidade, pode amplificar as brechas que promete fechar.

A pergunta que segue aberta

Em 1950, apenas dois anos após o paper de Shannon, Turing publicou Computing Machinery and Intelligence na revista Mind, formulando a interrogação que hoje atravessa todo debate sobre inteligência artificial: as máquinas podem pensar? Turing propôs substituir essa pergunta por um teste prático — o “jogo da imitação” —, sugerindo que, se uma máquina consegue fazer com que um avaliador humano não consiga distingui-la de uma pessoa, então a questão sobre o pensamento perde relevância diante da evidência do comportamento. Aquela pergunta de 1950 encontrou nas últimas décadas uma resposta parcial por meio das redes neurais profundas e da IA generativa, sistemas capazes de produzir texto, imagem e código que borram a fronteira entre o calculado e o criado.

A informática, aquela disciplina cujo nome surgiu da fusão de “informação” e “automática” em um escritório europeu dos anos cinquenta, percorreu um arco que vai da fita infinita da Máquina de Turing ao chip de 100 bilhões de transistores, do bit de Shannon ao fluxo incessante de dados que sustenta a vida contemporânea. Sua história demonstra que as ideias mais abstratas — a definição formal do computável, a quantificação matemática da informação — acabam por reconfigurar o mundo material de maneiras que seus próprios criadores dificilmente imaginaram.

Referencia autoral (APA): Editora Conceitos.com (Março 2026). Conceito de Informática. Em https://conceitos.com/informatica/. São Paulo, Brasil.

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